terça-feira, 21 de dezembro de 2010

VI E VIVI


Este ano estive no Prado(BA), São Paulo(SP), Santos(SP), Campinas(SP), Picinguaba(SP), Paraty(RJ), Florianópolis(SC), na minha Cidade Maravilhosa(RJ), Carapebús(RJ), Cabo Frio(RJ). Viajei menos que o ano passado, mas vivi tanto ou mais aventuras e desventuras. Emoções inimagináveis. Devaneios. Sonhos pensados e realizados. Me joguei no abismo sem medo da queda. Quebrei a cara, me levantei. Sorri, ri, gargalhei, sofri, chorei, me emocionei. Escrevi, escrevi, escrevi. Atuei ao lado da irmã e da avó. Me vi na tela grande. Transgredi alguns desafios do espiritual. Vi e vivi mudanças impensáveis há um ano. Sou o mesmo e tão diferente simultaneamente. Santos dias de transformação intensa.

Vi uma criança linda nascer. Vi o amor nascer. Vi sonhos adormecerem. Vi meu time campeão. Vi a vida por outro ângulo. Vi um casamento inesperado e belo. Vi ir, vi voltar, vi ir novamente. Porém mais forte do que ver, foi sentir. Saltando de sentimento em sentimento, sorvendo cada um e fazendo disso a minha grande escola.

Fui adulto, fui adolescente, fui criança. Fui todos mesmo sem não ser.

Não foram as promessas de reveillon que me moveram ao longo de 12 meses. Foi o despertar de cada manhã, quente ou gelada, anunciando um novo desafio.

Fui paulista, permanecendo carioca. Amei sê-lo. Procurei ser ao máximo. Fui. E assim fui feliz também.

Madrugadas em claro. Felizes.

Encontros que pareciam às escondidas. Histórias minhas que guardarei cá dentro.

O que poderia me definir?

Viva seu sonho, por mais absurdo que ele seja. E se não der certo, volte, regrida, mas traga consigo a paixão pelos tempos vividos. Pois é isso que te tornará um homem melhor e feliz.

Obrigado, 2010.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

ATAQUE RELIGIOSO



Houve um tempo em que as realizações artísticas ou até mesmo as de entretenimento, como as novelas, eram capazes de mudar os rumos políticos e sociais. Estas eram carregadas de significados e abasteciam de esperança os corações brasileiros ávidos por mudanças. Eram outros tempos e as exigências eram outras. Não que a população fosse mais politizada. O mundo necessitava da política e o povo acompanhava esse fluxo. Hoje um filme é apenas um filme. Uma novela é só uma novela. Nada mais que isso. Serve apenas para entreter. As produções engajadas atingem uma parcela ínfima e não repercute nos porões da sociedade.

No entanto, algo se manifesta em corrente contrária nos últimos anos. A religião, tema tão delicado, vem sendo a mola propulsora de uma mudança sensível. Filmes como “Chico Xavier” e “Nosso Lar” e novelas como “Escrito nas Estrelas” começam a tocar no assunto espiritismo. Em um país conhecido como a maior nação católica do mundo é de se espantar. Mas o país sempre foi ligado ao lado espírita. Vide as religiões de matriz africana tão difundidas por todo o território.

Porém no últimos 20, 30 anos vem crescendo, principalmente nas classes de baixa renda, o número de evangélicos das ditas igrejas pentecostais. Estas utilizam como propaganda o ataque às religiões afro, pois as mesmas são populares dentre o público alvo das pentecostais. Estas instituições evangélicas incitam uma guerra religiosa com o propósito de angariar mais fiéis e assim aumentar sua receita. Já que não se baseiam em princípios religiosos e sim na arrecadação financeira, auxiliada por uma lei que as isenta do pagamento de impostos.

O espiritismo vem como um escudo para amparar as religiões afro-brasileiras como a Umbanda e o Candomblé, já que possui uma estética mais palatável aos gostos católicos e agnósticos. A Umbanda e o Candomblé são muito “negros” para o Vaticano. Já o espiritismo de Kardec e Chico Xavier se mostra mais brando e próximo, atuando como intermediário.

Tudo isso faz parte de uma revolução que está apenas se iniciando, onde o animal que se sente ameaçado ataca o seu opositor. Vale ressaltar que quem criou este conflito foram os pentecostais, que tentam ferrenhamente “re-evangelizar” o mundo.

Por isso ressalto a importância de manifestações culturais que não só divertem o público, como também lançam em questão temas tão necessários à discussão. A mobilização feita por essas produções mostra que os espíritas brasileiros e simpatizantes existem e são muitos, só que não batem de porta em porta para dizer quem são. Pois religião é busca espiritual interna e não máquina de propaganda político-financeira.

Quem muito teme é porque não confia em si. Bate sem saber porquê e erra pois está no escuro. Sem luz não se alcança qualquer objetivo.

Axé!

Salve São Cosme e São Damião! Salve os Erês! Salve Crispim e Crispiniano! Salve Heleninha! Salve Conchinha de Prata!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

CRIMES E HISTÓRIAS


Crimes de diferentes tipos ocorrem a todo momento. Atingem as classes baixa e alta, em qualquer canto. O que diferencia a repercussão de cada caso normalmente está ligado à capacidade do autor em driblar as investigações. Um crime por mais cruel que seja, se é desvendado com facilidade, não desperta o maior interesse da sociedade. Mesmo que o acusado seja uma pessoa famosa. É claro que juntando todos os agravantes em apenas um caso(celebridade, crueldade do caso e mistério), fazem um crime se tornar um fenômeno. Porém o que move o ser humano são as histórias. São elas que fazem milhões de pessoas sentarem em frente à TV para assistir novelas diariamente.

Não sei como isto move outros povos, porém no Brasil, além da paixão pelas histórias fictícias, multiplica-se este interesse quando algo às vezes impensado para um roteiro, aparece diante das telas ou páginas de jornais como parte do mundo real. Daí surgiu o fenômeno BBB. Ver pessoas sem roteiro, vivendo e sendo observadas 24hrs por dia. Sofrendo. Rindo. Amando. Brigando. Lutando. E principalmente: se superando.

No entanto, nada atrai mais a atenção do que a morte. É difícil compreender as motivações para tal. A grande maioria das pessoas não consegue se imaginar em um momento de fúria tamanho, que permita tal atitude. E a raiva que surge por pensar no sofrimento da vítima motiva revoltas de toda parte. Até onde pode ir o ser humano? Do que somos capazes?

Então voltamos à questão do enredo. A possibilidade de pagar bons advogados e subornar testemunhas faz com que a dificuldade de se chegar a verdade dos fatos aumente. Cada passo dado pela investigação é acompanhado com ardor pelos espectadores. E aí surge a novela da vida real. A espera por novos capítulos. A torcida pelo mocinho e raiva pelo bandido. Diferente das novelas, há a possibilidade de questionar, alcançar um objetivo em comum. Surge a esperança de se fazer a justiça que falta em nossas vidas. Sonhamos uma vida com sentido. Pensamos em dias menos dolorosos.

O tempo passa. As provas aparecem. Vem o julgamento. Chegam à sentença. E como uma novela que alcança seu último capítulo, no dia seguinte é esquecida. Já queremos uma nova história para nos motivar. Percebo que o homem não pensa em justiça. Ele quer uma história que o mova. E assim somos desde crianças, à espera dos contos de fadas, dos desenhos animados. Queremos histórias que não sejam as nossas, pois sentir a realidade do que somos é mais doloroso do que olhar o sofrimento alheio.


Imagem: Guernica. PICASSO, Pablo.


quinta-feira, 17 de junho de 2010

ÁFRICA- PARTE 3



Como uma gota de tinta em papel branco, a África foi deixando suas marcas pelo mundo. O êxodo faz parte não da cultura, mas da necessidade de povos que sofrem o desastre da globalização.

Primeiro alguns foram retirados de suas terras, em uma imigração forçada. Pedaços africanos amputados foram espalhados pelos países colonizadores. A fácil identificação através da cor da pele, fez com que a marginalização não estivesse necessariamente associada à essência pobre ou cruel, mas sim ao que estava ao alcance dos olhos. A pele negra sempre esteve aliada ao sujo, desprezível, baixo, ignorante, repugnante, primitivo. Todos adjetivos que foram se perpetuando pelo imaginário coletivo. Segundo Goebbels uma verdade tantas vezes contada, acaba virando verdade. E aí se reforçou o instinto racista.

Em uma Europa multifacetada vemos a marca africana impregnada em cada canto. Negros franceses, ingleses, holandeses, de todas as nacionalidades. Há também os africanos marroquinos, argelinos, que são de identificação mais complicada. Essa invasão assusta o continente. Temem perder a identidade européia, querem manter a pureza de Hitler.

O que dizer de uma França que recebe por ano um número três vezes maior de imigrantes do que de nascimentos em seu território? O presidente Sarkozy(de origem húngara) quer expulsar do país o maior número de estrangeiros ilegais possível. Talvez não saiba que esses árabes, africanos, asiáticos ou até mesmo do leste europeu, são parte fundamental da mão-de-obra francesa. Um dia sem esses imigrantes levaria o país à bancarrota.

Só que o problema é muito mais profundo. Assim como estamos acostumados no Rio de Janeiro, as abordagens policiais na caça aos ilegais(Sans Papiers) são feitas através da identificação visual. Isto é, negros em sua maioria, são os escolhidos para passarem pela inspeção policial atrás de documentos que provem ou não a ilegalidade destas pessoas. Onde está a igualdade, a fraternidade, a liberdade?

Os europeus tornaram a África um local muito difícil para se viver, e hoje, que os negros por necessidade, tem de sair de seus países em busca de algo melhor, não encontram nos seus algozes algum alento. Porém esta invasão ao contrário se tornou irreversível. A Europa pintou em sangue a África. E agora em negro, os africanos vão espalhando sua cor, sua identidade, sua vida.

Em busca da liberdade prometida, esses negros vão vivendo então, presos nos guetos e subúrbios do primeiro mundo. São eles os pedreiros, faxineiros, seguranças, prostitutas... Humanos, porém marginais. Lembrados no esporte, na música, dificilmente na literatura, pois se a eles lhes for concedido o poder da palavra, transbordarão rios de prantos e verdades que o mundo não está preparado para receber. O silêncio dos africanos é como uma mina terrestre à espera de sua vítima. Possui um poder devastador, só precisa ser acionada.

O pensamento e o direito à palavra salvarão os homens marginalizados do desastre da segregação. Por alguns instantes podem fechar os olhos para não ver, porém, hoje, o mundo é recheado de África. Cada ponto escuro ao nosso redor significa luz. A luz da alma negra.

sábado, 12 de junho de 2010

ÁFRICA- PARTE 2


É tudo muito recente. As imagens passam repetidamente em todos os canais de TV do mundo. Pessoas olham estáticas, abismadas com a alegria de um povo que sofre tanto e ainda canta e dança. Celebra. Assim é a África. O pesar pode vir através da música em pranto, nunca em silêncio. E a celebração vem embalada ao som do coração, que bate tão forte, que se faz ouvir por todos os cantos.

Não só ouvidos ficam abismados. Olhos não crêem no que vêem. Tantas cores misturadas. Seria fora de moda aos olhares italianos, talvez. Porém naquele contexto combinam tanto, fazem todo sentido de existir. O que vestem diz muito sobre o que são. Um povo que carrega a alegria nas cores de suas vestimentas.

A pele também sente a diferença. No toque. No afago. No abraço apertado e amistoso. Não há receio de tocar o outro. Esta é uma forma comum de dar boas vindas. E talvez aí esteja o maior espanto. Nas terras acima do Equador, o contato é visto com ressalvas. “Por que temer?” Dizem eles. São todos irmãos, independente de cor ou credo.

Provavelmente cheiros e gostos causem igual estranhamento. Não o sei. Porém depois de tantos anos de abandono e indiferença, é com perplexidade que o mundo visita a África. Com a mesma perplexidade que portugueses, franceses, ingleses, holandeses, espanhóis e tantos outros tiveram há mais de 500 anos atrás. Quem é esse povo? Que ameaça podem ser? O que pensam? Como vivem? Incrível como depois de séculos as perguntas continuam sendo as mesmas. Depois de tanto tempo ninguém teve a perspicácias de decifrar um povo tão simples, tão humano em sua essência. Perderam valiosos ensinamentos, com certeza.

Talvez agora, possamos reescrever os livros de História. Preenchendo lacunas antes incompletas. Escreverão que na terra onde nasceu o Homem, existem pessoas que pensam, sentem, falam, se expressam e não apenas irão falar de primitivos em busca de uma salvação que nunca virá.

O que me entristece é perceber que o povo africano precisa se auto-identificar para que a partir daí, cresçam. Isso é extremamente complicado. Criar identidade para buscar caminhos é tão difícil quanto gerar a paz no mundo. Porém não impossível. O porquê de tanta demora em encontrar tal resposta se deu por conta de anos de cegueira e surdez impostos pelo dito 1° mundo. Hoje, de olhos abertos e com a voz solta, este povo canta e causa espanto. O que antes era apenas lágrima silenciosa, hoje se tornou grito de alegria. E o povo que esteve escondido em seu gueto, agora pode mostrar seu sorriso, seu rosto, sua alma.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

ÁFRICA- PARTE 1


Uma pergunta martela a cabeça: o que é a África? Ou mudando o português: o que “são” a África?

Diante de uma questão tão complexa vou buscando resposta para um enigma que talvez a Humanidade ainda leve muitos anos para descobrir. Olho para mim e vejo muito dela, ao mesmo tempo em que tão distante, não posso dizer o quanto dela possuo em mim.

São muitas Áfricas para procurar, estudar. Tento entender, tento saber mais sobre mim mesmo.

É errado falar do continente africano como uma coisa só. São 53 países, quase 1 bilhão de habitantes e milhares de etnias, línguas e dialetos. Diversos tipos de colonizações perversas, brigas étnicas, guerras, guerrilhas, ditaduras. Tudo isso no lugar onde nasceu o Homem.

A imagem da pobreza é a primeira coisa que vem à cabeça quando penso na África. A imagem de pessoas subnutridas corre o mundo e leva o que há de pior aos 4 cantos. É muito pouco, quase nada, é injusto com culturas tão ricas. Porém alarmante.

Não podemos cair no erro de pensar que lá só existem pobres coitados em busca de auxílio, mas a situação atual se deve a séculos de exploração européia, que não por acaso, são a origem da maioria das entidades de ajuda humanitária que se espalham por todo continente. Algo como um pedido de desculpas muito atrasado.

Uma das principais estratégias utilizadas era inflamar o conflito entre etnias para enfraquecê-las e subjugá-las. Os conflitos que vemos hoje, são reflexos disso. Mas não há como tentar solucionar o problema africano pensando nele como uma coisa só. Cada país possui sua particularidade e buscar a união entre povos que se odeiam(sem motivos) por séculos é uma atitude inocente.

O Mundial de futebol na África do Sul é uma oportunidade para que os olhos do mundo enxerguem um pouco das súplicas africanas. A atenção pode gerar bons frutos. Principalmente no país que gerou Nelson Mandela, o homem que passou 27 anos na prisão, para depois assumir a presidência da nação e acabar com o Apartheid.

É ilusório pensar que o Apartheid acabou, mas passos foram dados.

Vou sendo levado de um assunto a outro e percebo o quanto fico motivado a discutir. Preciso de muito ainda. Preciso de mais. Preciso me entender. Entender a mim, à África, o Brasil. Por um elo forte, tudo está ligado. Faço parte dele. Esta é minha diáspora às avessas. O sangue do sofrimento africano corre por minhas veias, mas nelas também trago a energia e alegria que criaram o mundo.

domingo, 6 de junho de 2010

BOLETIM AFROBRASILEIRO


Neste ano de Copa do Mundo e eleições, o Boletim Afrocarioca não poderia se abster. Esses assuntos que tomam conta da vida do brasileiro de 4 em 4 anos estarão aqui presentes. Desta forma, nos tornamos o "Boletim Afrobrasileiro".
Na próxima sexta(11 de junho) a Copa do Mundo da África do Sul dará seu pontapé inicial. E aqui no nosso blog teremos a oportunidade de debatermos diversos assuntos em relação a futebol, geo-política e diversão. Ánalise dos jogos, dos adversários, assuntos africanos, tudo através da liguagem que estamos acostumados aqui no Afrocarioca.
Espero poder contar com a colaboração e comentários de vocês.
Abraço,

Ernesto Xavier
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