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sexta-feira, 3 de março de 2017

MAIS UM


Eu tinha onze anos quando passei uma tarde inteira jogando futebol com um amigo no clube onde meu pai era vice-presidente e o avô dele diretor. Éramos duas crianças negras suadas e felizes. A tarde já caía quando passamos na frente de um dos salões onde acabara de acontecer uma festa de aniversário. Algumas pessoas guardavam o que havia sobrado. Foi quando uma mulher nos viu e pediu que esperássemos. Ela trouxe uma caixa cheia de doces e salgados e com uma cara de pena, piedade, sei lá, nos disse:
- Isso aqui é pra vocês dividirem com seus amiguinhos na rua.
Sim, ela achou que éramos meninos de rua pedindo comida. Fez uma boa ação e partiu com seu coração confortado por ter colaborado para a acabar com a fome de alguns pobres garotos.
Nesta mesma época acordei em um sábado com o corpo cheio de pintas vermelhas. Minha mãe, preocupada, me levou à emergência de um hospital perto de nossa casa. O médico mal me olhou e diagnosticou:
- É sarna.
Passou um sabonete especial para que eu pudesse tomar banho.
Não melhorei. Seguia com as pintas e coceira. Foi então que ela resolveu me levar a uma médica de sua confiança na segunda-feira. Diagnóstico:
- Alergia a determinados tipos de corantes.
Eu tinha bebido muita Fanta Uva, só isso. Eu não vivia em condições insalubres, sem higiene, saneamento básico, etc. Mas o médico de pronto assim pensou.
Dez anos se passaram e eu estava prestes a me formar em Jornalismo. Estudei em uma universidade particular. Era o único aluno de toda a faculdade com bolsa de Iniciação Científica paga pelo Estado. Participei de uma pesquisa por 3 anos. Minha monografia tratou sobre o mesmo tema. Ela era, naturalmente, maior e mais elaborada que as demais, já que eu estava debruçado sobre ela há mais tempo que os outros alunos.
Normal.
No dia da apresentação para a banca, uma professora veio até mim e me chamou no canto para conversar:
- Ernesto, levantaram uma suspeita sobre o seu trabalho. Tudo que está ali foi você que escreveu?
- Sim, professora. Por que? A senhora me conhece.
- Desconfiam que você tenha plagiado ou comprado.
- Nunca. Jamais.
Após a apresentação o professor que levantou a suspeita pediu desculpas e me parabenizou pelo trabalho. Tirei 10. Mas ainda estava puto com aquilo.
Eu não vivi em locais de vulnerabilidade social. Estive em espaços privilegiados, onde na grande maioria das vezes eu era o único(ou um dos poucos) negros presentes. Eu tive a oportunidade de estudar, ter plano de saúde, lazer, boa alimentação, estrutura familiar. Tive tudo, entendem? Mesmo assim, em todos os momentos não deixei de ser um homem negro brasileiro, o que significa carregar o estereótipo nas costas, o olhar de desconfiança alheio, a descrença da sociedade, o ódio até, a pena em alguns casos, o desprezo.
João Vítor, de 13 anos, foi morto com um soco, quando pedia comida na porta do Habib’s, em São Paulo. João Vítor era preto e pobre. Franzino.
Que ameaça trazia para um segurança muito maior do que ele?
Não foi só a agressão que matou João Vítor. Foi o estereótipo, a desconfiança, a descrença, o ódio, o desprezo. O racismo, compreende?
Ele é mais um a morrer apenas por ser preto e pobre.
Mais uma família mutilada.
Mais um para a estatística que poucos dão atenção.
Para morrer, basta nascer preto

quinta-feira, 2 de março de 2017

EMERSON E MAYKON



Tenho mania de conversa. Esse gosto “estranho” de entender um pouco mais o outro, na busca de entender a si próprio. Se me dão uma brecha, lá vou eu. Claro que entendo o limite da inconveniência, da chatice, da intromissão. Deixo fluir. Se rolar, rolou.

Foi dessa forma que conheci Emerson e Maykon em uma segunda-feira de carnaval carioca. Dois brasileiros bem pobres, com realidades bem próximas, com histórias que poderiam se cruzar.
De um lado, um pai. Do outro, um filho.

O pai Emerson, caminhava com um isopor quase vazio nas ruas da Lapa. Nos ofereceu algo para beber. Não queríamos nada naquele momento, mas ele nos falou seu bordão com as promoções e começamos a gritar igual, como se também estivéssemos vendendo. Oferecíamos a quem passasse e assim fomos fazendo companhia um ao outro em direção à Praça da Cruz Vermelha.

Emerson mora em Paracambi. Para chegar à Central do Brasil às 7 horas da manhã, tem que pegar o trem às 3h.

Está desempregado.

Deveu a pensão a pensão da filha por 3 meses. Está separado há 2 anos. Sofreu por ver a filha pedir dinheiro e não ter 10 centavos no bolso.

Passou 3 dias na Lapa durante o carnaval, dormindo sob os arcos, para vender o máximo que pudesse. Comprava no depósito de bebidas ali perto e revendia nas ruas movimentadas do bairro boêmio.

Viu outro vendedor, que também viveu na rua esses dias, levar uma facada numa tentativa de assalto enquanto dormia.

Emerson voltava com o rosto cansado, mas feliz por saber que pagaria a pensão da filha. Disse ter contado com a compreensão da ex-mulher, que assim como tantas mulheres neste país, guardam a responsabilidade pela criação e sustento dos filhos, muitas vezes sem qualquer participação paterna. Emerson não queria troféu algum. Sabia que era o mínimo a fazer. Iria diretamente para a casa delas para entregar todo o dinheiro que conseguiu naqueles dias.

Algumas horas depois, encontrei Maykon. Aparentava seus 16, 17 anos. Estava com os pais no Largo da Carioca. Não sei de onde vieram. Mas dormiram bem ali no berço da cidade do Rio também por 3 dias também. Vendiam cachorro quente. O dinheiro aliviaria a pobreza.

Maykon estava extenuado. Não queria mais dormir na rua. Aquela seria a última noite, disse ele. Voltariam para casa. Teriam algum descanso, talvez.

Ali estavam dois exemplos dentro de outros milhões de invisíveis.

Invisíveis pobres, sem instrução, sem oportunidades, desempregados e famintos. Ainda assim esperançosos de um dia melhor.

Não há como romantizar suas histórias. Eles são a realidade. São aquilo que não buscamos entender, ouvir, perceber. Vivem de sobreviver.

O carnaval deles é outro.


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

MULHER ANTENADA






Maria tentava escrever uma carta. Em vão. Sentia uma dificuldade extrema de expor sentimentos e opiniões com uma caneta sobre o papel. Não fazia isso desde a infância, pensava. Sua última lembrança de receber algo escrito por alguém remetia a um cartão de natal que ganhou da avó aos 9 anos de idade. O ato de enviar cartas ela não possuía em sua gaveta de memórias remotas. 

Ela é a típica mulher antenada: tem tablet, smartphone, ultrabook e Ipod. Evita comer glúten e lactose. Malha 4 vezes por semana e passa Renew. Posta no Instagram, compartilha no Facebook e está desistindo do Twitter. Fez MBA em Marketing e Pós-graduação em Administração Pública. Lê horóscopo no jornal pela manhã, mas ao fim do dia já não se lembra do que leu e nem se a previsão deu certo. É apenas um hábito. O nome Maria é considerado por ela interessante, por remeter a imagem de uma mulher mais simples, o que contrasta com seu estilo sofisticado. Ela está sozinha em um quarto de hotel em São Paulo. A noite fria que ela abraçou ao caminhar pela Avenida Paulista ficou do lado de fora. No quadrado simples e confortável onde ela se encontra o clima é ameno, acompanhando os gestos delicados dela. 

Escreve, apaga, torna a escrever, desiste por um tempo, retorna, não se agrada com a primeira frase e se desespera por ter tanto a dizer e ver a página vazia. Não encontra palavras e nem o impulso que a levou a tomar aquela atitude. 

Está em São Paulo para uma reunião com investidores estrangeiros que querem comprar uma parte da empresa em que ela trabalha. Chegara um dia antes para preparar alguns detalhes com mais calma e não correr o risco de um vôo atrasado na manhã da reunião. É uma mulher prevenida. 

Duas horas antes, quando sentada na cafeteria da Livraria Cultura, pensava no caos que tomava conta de sua alma até então em equilíbrio. Tinha nas mãos um envelope que prometera abrir apenas quando encontrasse Gabriel, seu namorado há 3 anos. Um oposto que a completava onde ela mais precisava. Um semelhante que a confrontava por saber que a mulher que amava não era perfeita, pois ninguém é. Ela não resistiu e abriu o envelope para saber seu conteúdo. Sentia-se no direito de ter a solidão e a reação que julgasse oportuna, sem o olhar de conhecidos. 

O que diria Virginia Woolf sobre Maria? O que descreveria Simone de Beauvoir? E Lygia Fagundes Telles? Clarice Lispector? Martha Medeiros teria algo de bom a lhe dizer? Suas mentoras não alcançavam a complexidade das suas necessidades e medos. O que era já não sabia mais. Não havia paradigmas a seguir. Agora vivia o presente e o futuro, a certeza e a esperança, seu sossego e a perdição. Estava grávida. 

Seus planos de maternidade remetiam a um tempo de inocência em plena efervescência hormonal da adolescência. Agora aos 29 anos só conseguia pensar na promoção que batalhava para alcançar na empresa, nos lugares do mundo onde ainda gostaria de pisar, na estabilidade financeira e emocional que sentia ainda distante de acordo com os padrões rígidos que estabelecera para si. Ela que era fruto da revolução feminina das décadas de 60 e 70 o qual suas avós e mãe enfrentaram. 

Tentava se olhar por fora. Não a casca que cobria suas vísceras, mas ter um olhar distanciado daquilo que vivia a cada segundo. Achava engraçado perceber a loucura que carregava no olhar distante, o pensamento mergulhado em descobertas, tudo misturado. Era apenas ela e nada mais.

O celular começou a vibrar sobre a mesa onde Maria tentava escrever. Ela queria enviar a carta para Gabriel, carta esta que chegaria depois dela ao Rio de Janeiro. Foi a forma que encontrou para dar a inesperada notícia: ele seria pai. Não tinha coragem de falar para ele diretamente. Pelo menos até aquele momento não encontrava essa força. O celular continuava a vibrar. Gabriel. 

- Alô, amor?
- Oi.
- Tá tudo bem?
- Tudo. Não foi pro futebol hoje?
- Não. Fiquei em casa. Me bateu uma vontade de te falar uma coisa.
- O que? Fala.
- Eu até anotei pra não esquecer: “Nada pode passar sem lágrimas, suor e amor. Se não for pra sentir, prefiro esperar. Meu tempo é feito de intensidades. Só é perfeito para nós o que contiver as qualidades e defeitos certos para aquilo que precisamos aprender. Nossas necessidades são cheias de mistérios.”

- De quem é?
- Meu. 

Em poucas palavras ele conseguiu dizer o que ela precisava escutar. Como se ele já soubesse de tudo o que estava acontecendo dentro dela. Maria conseguiu captar os sentimentos de cada frase. Sem que ele percebesse, ela começou a chorar. Tinha uma vida que precisaria muito dela. E a partir dali saberia que ela também precisaria tanto daquela vida que gerava. Vida alimentando vida. 

- Lindo.
- Ninguém nunca nesse mundo vai entender o que temos. Até porque o que temos não é deste mundo. Não é mesmo? Te amo.

Ficaram ainda um tempo conversando e depois se despediram. As declarações enigmáticas de Gabriel tinham atingido ela em cheio. A mulher antenada agora seria mãe. Foi então invadida por uma felicidade que a deixava inquieta, sem palavras que pudessem descrever com justiça os sentimentos que se faziam presentes. Queria poder inventá-las de acordo com suas crenças e desejos, pois as que aprendera não lhe confortavam. O que sentia não tinha um símbolo, mas era carregado de significados. Era tão bom ser inexplicável!


Ernesto Xavier


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

MEA CULPA



Mulher,

Quero pedir desculpas. Não que eu possa responder por outros, mas me sinto na obrigação de fazê-lo. Falo por mim. Portanto, escreverei na primeira pessoa.

Por minha causa foi necessária a criação de vagões exclusivos para que você pudesse viajar sem o temor de ser abusada sexualmente, empurrada, ameaçada.

Por minha culpa você tem medo de andar sozinha à noite. Não precisa mais temer a roupa que irá usar. Não mais vou achar que está me provocando e nem tentarei estupra-la ou falarei frases constrangedoras como:
“Te chupava todinha”, “Essa deve enlouquecer na cama”, “Quer segurar aqui?”, “Gostosa”, “Safada” e outras do tipo.

Por minha culpa e consentimento de amigos, os seus salários são inferiores ao meu. Perdão. Também não usarei a desculpa de que tenho que trabalhar mais enquanto você está de Licença Maternidade. Você fica exausta, eu não te ajudo como deveria e ainda faço pouco caso. Não são férias, eu sei.

Sei que sou culpado pela morte de muitas de vocês. Não mais morrerão por minhas mãos. Nem precisa se sentir intimidada por me denunciar. Assumirei a culpa por meus atos.

Por minha total culpa você não pôde escolher o que fazer com seu corpo. Não te incriminarei se quiser ou precisar abortar. Assumo que o crime está nas inúmeras vezes que te abandonei ao saber que estavas grávida. Joguei sempre em ti a responsabilidade total dos filhos. Não posso medir o tamanho do trauma por colaborar para que você passasse por isso. Estarei ao seu lado seja lá qual for a decisão. Prometo.

Enquanto você varria a casa, eu descansava. Você estava lavando louça e eu dedicava mais tempo aos estudos. Você passava roupa e eu via o noticiário. Desigual, não? Eu criei essa cultura de propósito. Assumo que agi errado.

Você escolhe se quer fazer cesariana ou parto normal. Também não vou te expulsar ou assediar se quiser amamentar em locais públicos. É um direito seu que eu tirei. Fiz parecer que você deveria se envergonhar por isso.

Eu te impus uma luta estressante contra seu próprio corpo. Ao mesmo tempo exaltei as minhas imperfeições como se fossem o resultado de uma vida gloriosa. Esqueça disso. Sinta-se bem e bonita como você é. Culpa minha, eu sei.

Quem sou eu para opinar sobre assuntos totalmente seus? Não passo os seus medos, não menstruo e nem fico grávido, não tenho tantas alterações hormonais, não sou assediado em cada esquina, não sou pressionado a trabalhar, cuidar dos filhos, da casa e ainda estar bonita e disposta para transar.

Por minha causa você é taxada de piranha, puta e galinha quando fica com alguém e eu sou festejado por fazer sexo com várias.

Também por minha conta criaram material pornô voltado apenas para o público masculino, sempre subjugando as mulheres.

Sei que durante muito tempo eu disse que vocês não eram capazes, não chegariam longe, diminuí a autoestima e humilhei quando quis. Sei disso. Desculpa.

Eu ajudei a criar mecanismos que dificultassem sua ascensão em empresas, na política e até na arte.

Joguei a culpa em você por dirigir mal, mesmo sabendo que 80% dos acidentes com ou sem vítimas envolvem motoristas do sexo masculino.

Por minha causa tratamos as mulheres transexuais como uma sub-raça. Não só isso. Matamos, batemos, não damos a elas acesso à educação e trabalho.

Eu ajudei a te fazer esquecer ou ignorar o sentido do dia 8 de março. Aproximadamente 130 mulheres morreram carbonizadas naquela fábrica, em Nova York, em 1857, apenas porque reivindicavam igualdade e melhores condições de trabalho. Maquiei esse dia apenas te dando flores.

Sei que é fácil pedir desculpas depois de tanto tempo tratando você assim, mas queria ao menos estabelecer uma relação mais saudável a partir de agora. Você tem todos os motivos para não aceitar ou acreditar no meu pedido de perdão. Errei durante muito tempo. É difícil confiar em mim.

É fácil estar no papel do opressor, já que posso desqualificar o que julgo estar abaixo de mim e imponho minha vontade pela força física, mental ou social. Faço isso há milênios. Literalmente.

Empodere-se.  Tentei tirar seu poder, mas ele é nato.

Não vou mais desmerecer, nem ridicularizar sua luta. Ela existe porque eu existo e ainda sou como sou.

Minhas sinceras desculpas,

Ernesto Xavier



. 10 de outubro - Dia Nacional de Luta contra a Violência à Mulher





segunda-feira, 5 de outubro de 2015

CANTO DE DOR



Ao sair pela madrugada fria de julho a rua era só silêncio. As luzes amarelas mostravam o caminho a percorrer. Para trás deixava parte de si. Suas partes mais importantes, na verdade. Doía deixar duas crianças sozinhas. Uma menina de 12 e um garoto de 8 anos. A mais velha tinha a responsabilidade de cuidar do menor. Rosângela, ou Rose, como era conhecida em Antares, onde vivia e no trabalho, olhava apenas para frente, pois se fraquejasse desistia e voltava para o aconchego deles.

O ex-marido tinha sido preso por roubo há 4 anos. Ela se sentia aliviada porque não apanhava mais. Denunciar, em sua cabeça, seria o mesmo que assinar a própria sentença. Quem protege uma mulher negra na favela? Quem iria mantê-lo afastado dela e das crianças?

O horizonte que ficava azul aos poucos a levava a pensamentos distantes. O que a teria levado até ali? Por que precisava criar os filhos dos outros para que pudesse dar o de comer para os seus próprios filhos? Quem criava os seus? Deixaria para eles o mesmo legado de desesperança? Mantinha-se firme para que não a vissem tropeçar. Fazia questão de não dormir no trabalho para ter ao menos alguns instantes com eles. Queria fazer alguma diferença.

Mantinha contato constante pelo celular com Luísa, a filha mais velha, para saber como estavam. Seu corpo estava longe, mas a alma cercava os filhos para protege-los.

O que seria ter liberdade? Não sabia, pois tudo a sua volta lhe impunha limites quase intransponíveis. Não podia ir onde quisesse. Não tinha estudo para mudar ou crescer no trabalho. Não tinha dinheiro. Não tinha mais forças para sonhar. Se sentia presa ao chão para sempre. Seu maior medo era deixar essa herança para os filhos.

O seu dia era marcado pelo pensamento distante, o trabalho incessante, o carinho que tinha pelo filho dos patrões.

No ônibus ao retornar ligou o rádio no celular como de costume. Conseguiu um espaço em pé após uma disputa corporal entre homens e mulheres. Vencia o mais forte. Atrás dela um rapaz que aparentava 25 anos fazia movimentos na tentativa de sentir seu corpo. Ela gritou. Todo o ônibus olhou em sua direção. O rapaz desistiu e fingiu que nada tinha acontecido. Era a selva. Ela era a leoa defendendo o alimento dos filhotes. Conseguiu ouvir no noticiário que um confronto entre policiais e traficantes tinha ocorrido na comunidade onde vivia. Não chegava a ser uma novidade, mas nada tirava o aperto de seu peito. A preocupação com quem havia deixado em casa. Segurava o terço dentro da bolsa e pedia a Nossa Senhora das Dores que protegesse os seus.

Ouviram os primeiros tiros longe dali. Mesmo assim se puseram deitados no chão. Aos poucos os estampidos ressoavam cada vez mais próximos. O barulho de motos passando em disparada chamaram a atenção do garoto. Levantou-se para vê-las passar. Luísa não teve tempo de reagir. Patrick recebeu o impacto no peito e caiu no chão. O tiro havia atravessado a janela. Fulminante. Por cerca de 10 minutos ninguém sabia o que tinha acontecido dentro daquela casa. Todos estavam escondidos dentro das suas e pouco poderiam saber sobre o que passava do lado de fora. Os sons de tiro cessaram. As sirenes das viaturas estavam distantes. O grito de horror e desespero de Luísa invadiu todas as casas ao redor.

Na favela nenhuma bala é perdida.

Rose apertava o passo para chegar em casa. Queria ter estado perto dos pequenos quando a guerra teve lugar. Ela não via mais nada. Tentava abrir espaço na multidão. Aos solavancos passava. Todos parados a olhar a tragédia. O faziam por curiosidade, pena, desespero, alívio. Assistir as mazelas humanas de fora dá a dúbia sensação de pertencimento, por saber que aquela é também sua realidade, mas ao mesmo tempo alívio, pois sabe-se que ao menos dessa vez você não foi o atingido. Por mais que muitos ali sentissem o acontecido, só ela teria a real noção de sua dor. Apenas ela deixaria de dormir seguidas noites em prantos. Ela se culparia. Ela carregaria o peso da ausência, a opressão do vazio.

- É minha casa. Por que estão na frente da minha casa? Deixem eu ver meus filhos! Meus filhos. Meus filhos.

Parou.

O que estava acontecendo? Por que tanta gente? Por que os policiais na sua porta?

Tentaram impedir que entrasse.

- É minha casa!
- Mãe!!! – gritava Luísa lá de dentro. Abriram para que a mãe passasse.

Viu o pano branco sobre o corpo caído. Acreditar em que? Se apegar a quem? Onde consolar-se?
Um grito sem som. Olhar perdido. O silêncio de sua dor inundava a favela.

Queria traze-lo de volta para sua barriga, onde ele estaria sempre protegido. Ninava o corpo inerte e cantava uma música de dormir inteligível. Era como uma oração própria, só compreendida por eles. Balançava para frente e para trás. Enquanto isso os abutres empoleiravam-se na janela para ver a cena. Tiravam fotos para colocar na capa do jornal no dia seguinte. Mais uma história para a conta.

Suas mãos, de parcas forças, já haviam carregado bebês alheios, mexido panelas, segurado enxadas e agora tentavam enxugar seu desespero.

Deveria ser proibido mãe enterrar filho.





Ernesto Xavier

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

UM PASSO


Ele estava diante do gatilho. Sentia o cano frio tocar sua têmpora e o homem a gritar:
- Agora diz quem é o policial aqui? Você não queria um policial?
Ficou ali deitado um instante, arquejante, avaliando se ainda estava vivo.
O homem falava com hálito de álcool bem próximo ao seu rosto, que raspava o chão. Colocava alguma espécie de documento diante de seus olhos, mas ele não conseguia enxergar nada. Só pensava “minha mãe não pode ver meu corpo com uma bala na cabeça. Ela não pode me ver assim. ”
Tinha saído apenas para encontrar os amigos em um bar no estacionamento do supermercado. Era sábado à tarde e ficar sozinho em casa, longe da cidade natal, não era nada fácil. Largou família, amigos, namorada... A distância derrubou o que já estava cambaleando. Sonhava com ela quase todos os dias. Acordou chorando algumas vezes, sentiu raiva de si outras.
À primeira vista poderia não parecer, mas ele estava disposto a encarar quem o olhasse. Arrumaria confusão com qualquer pessoa. Este sentimento inconsciente tomava conta dele aos poucos. Não sabia brigar. Então porque o faria? Para apanhar. Seria uma forma de punir-se, de limpar a sujeira em si, de esquecer.
Ver a morte de frente foi diferente.
Tudo começou por causa de uma vaga no estacionamento.
- Qual o problema de parar aqui?
- Essa vaga é de idoso.
- Não tinha visto.
- Então tira o carro.
- Quem é você para me mandar?
- Não te interessa. Tira, seu merda.
- Agora é que eu não tiro. Você é policial? Vai me prender?
O homem sacou a arma e foi na direção de Márcio. Coronhada na nuca, cabeça no asfalto, hálito de álcool invadindo as narinas. Conseguiu se levantar e ainda ameaçado pela arma entrou no carro e acelerou. Os amigos que o esperavam não viram a cena.
Passou por uma blitz policial, mas não teve coragem de denunciar o acontecido. Poderia ser pior. Parou o carro alguns metros adiante e desabou em convulsões de pranto. Ver a morte é assim?
Não foi fácil colocar a cabeça no travesseiro à noite. Não vinha sendo, pelos menos. A mente girava e vasculhava cada passo que seria dado a partir dali, como se um novo ciclo fosse iniciar e mais desafiador do que os anteriores. Poderia ser.
O sentimento era de autodestruição. Recebera um “convite” para deixar o trabalho. A rua seria seu próximo posto. Metade de suas despesas eram pagas com a ajuda dos pais. Estava solteiro não por vontade própria. O aluguel estava atrasado há um mês. Tinha 32 anos e a sensação de que a adolescência ainda fazia parte dele. Alguns vídeos pornôs recebidos em grupos no whatsapp eram seus companheiros nas noites vazias. Sentia que precisava fazer alguma coisa, mas o que? Não encontrava algo que lhe daria força.
Existia fundo do poço?
Ele pensava que poderia não estar mais ali, que aquilo poderia não ser realidade. Não ligou para a mãe. Seria difícil disfarçar o que sentia. Viriam as perguntas que ele não queria responder. Por que não voltava para a casa dos pais?
O preto velho da Casa de Mãe Rita já tinha avisado. Prepara pra dar passo atrás. Se ficar parado é pra se acabar. Sua missão é grande, fio. Mas fio é corajoso. Não vai desistir.
Falou para ele tomar três banhos de cachoeira para mãe Oxum ajudar a clarear as ideias e pedir proteção a pai Xangô.
O que seria dar um passo atrás? Como poderia descer mais?
Ligou para Amanda. A amiga sempre vinha quando ele chamava. Era um pacto sem contrato. Sexo sem compromisso. Conversa franca. Verdade falada na cara sem medo de repreensão. Julgava ser a relação perfeita. Por que não me apaixono por ela? Por que não ficamos juntos de vez?
Vai estragar tudo, você sabe. Deixa como está.
Ela foi embora sem saber que Márcio quase tinha tomado um tiro na fronte. Não sabia também que aquela seria a última vez deles.
Resolveu partir na manhã seguinte de volta para o Rio de Janeiro. Seria voltar atrás? Quem poderia afirmar? As cicatrizes necessárias para que lembrasse das dores, das perdas, dos aprendizados, estavam expostas. Precisava lembrar. Era sua forma de crescer.
Na porta do apartamento, antes mesmo de colocar as chaves na porta, deixou as malas no chão e pôs-se a ouvir os sons que vinham de dentro. A televisão ligada em algum jogo de futebol indicava que o pai estaria ali, provavelmente dormindo. O estalar da gordura ressoava vindo da cozinha. O cheiro ultrapassava a porta e seguia pelo corredor do 5° andar. Era a mãe. A voz alta e rouca da irmã saía da mesma direção. Conversavam, mas ele não conseguiu identificar o assunto.
Abriu a porta.
- Mais um prato na mesa, por favor.
Foram gritos, foi o choro da saudade que se misturava à incredulidade, foi o pai acordando assustado. Aquilo não poderia ser voltar atrás.
Não contaria os eventos dos últimos dias. O silêncio é também uma decisão. Não dizer, diz muito. A ausência de palavras é repleta de significados.
Era recomeço. Era sua primeira prova de coragem. Para onde iria?

A história era o próprio caminho.
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