sexta-feira, 25 de outubro de 2013

SINTOMAS

Por Ernesto Xavier

Parar de fumar tinha sido o mais difícil. O cigarro a acompanhava desde os 19 anos. No início era só uma forma de parecer menos menina. Depois começou a ser o companheiro das noites insones escrevendo projetos da faculdade. No aeroporto de Congonhas ela se preocupava com o relógio. Havia poucos dias do início do horário de verão e ela tradicionalmente demorava a se adaptar. Quando se sentia à vontade, acabava, já era março. A ansiedade levava a mão à bolsa, procurando o maço. A frustração vinha com a lembrança imediata, ‘não posso fumar, você parou’.  Check-in feito, embarque, decolagem, Rio de Janeiro, aeroporto Santos Dumont. Não tinha medo de avião, mas daquela vez teve.  Tudo por conta de seis semanas que já mudavam a vida.
No Rio, o irmão mais velho a esperava para irem direto à Teresópolis. Ela era a filha do meio, enquanto a mais nova, o motivo da vinda, estava prestes a casar. Tinha saudade do Rio. Poder andar de Havaianas na rua sem ser julgada, se vestir com menos culpa, dar alívio à pele com a maquiagem, beber cerveja em pé no Baixo Gávea. São Paulo dava dinheiro. Fazer o que? Não é todo dia que uma biomédica consegue um salário tão bom. Falta da família? Sim, principalmente aos domingos. Porém morar sozinha era inigualável. A louça parou de ser uma obrigação diária. Lavava quando queria. Quem reclamaria? O pão integral não sumia repentinamente da geladeira. Nada de ser acordada em um dia de folga por conta de uma “emergência”, que no fim poderia ser resolvida por qualquer um. Estava isenta de perguntas como: Dormiu onde? Vai sair com quem? Está indo pra onde? Está levando o guarda-chuva?
Sentiu falta de alguém no dia em que esqueceu a chave do apartamento no trabalho e não tinha a quem recorrer. Retornou ao laboratório no trânsito de São Paulo. Uma chave não valia mais do que sua liberdade.
Subindo a serra pediu duas vezes que parasse para fazer xixi. Sintoma da gravidez. Ela mesma tinha feito o exame. Guardaria o segredo até quando não mais pudesse ou se criasse coragem de enfrentar os julgamentos. Eles viriam. 32 anos e ela era questionada por não ter ao menos um namorado. Marido era um sonho distante que a mãe cultivava. As tias especulavam que ela fosse lésbica, ‘Hoje em dia esse povo anda tão moderno. Pode tudo, né?!’. Ela fingia que não ouvia e que não entendia os olhares maldosos sempre que chegava para os encontros de família sozinha.
Encontrar o ex-namorado pouco mais de um mês antes não foi algo premeditado. Ela imaginava que ele iria ao show do Jack Johnson, mas daí encontrá-lo no meio de outras oito mil pessoas já seria contar com a sorte...ou azar. Encontrou. Ficaram. E daí?, pensou. Ele ainda morava com os pais. Terminaram a noite no apartamento dela. Preferia assim. Prefere acordar e saber onde está, poder ir ao banheiro de madrugada mesmo no escuro ou andar pelada pela casa sem receio de encontrar um garoto de 15 anos jogando videogame na sala.
Foi uma obra do acaso, ela sabia. Não estranhou, mesmo que por dentro a magoasse, o fato dele não ter dado mais notícias após aquela noite. Nenhum telefonema ou mensagem de texto. Mesmo forte, ela não gostava de se sentir usada.
Azia.
A alimentação era a mesma de sempre, porém o cheiro do cigarro passou a enjoá-la. Já sabia o que era. Fez o exame só para ter certeza.
-Como assim, grávida?
-Ué...sexo pode dar nisso, sabia?
-Você tem certeza que é meu?
Respirou fundo. Calou quando em outro momento expressaria com um sonoro “Filho da puta!”.
-Tenho.
-Você quer mesmo ter?
Ela desligou o telefone. Ele tentou ligar mais algumas vezes naquele dia, mas logo parou. Não queria comprometer um caso que estava tendo com uma mulher do trabalho. O “revival” com a ex tinha sido inevitável, dadas as circunstâncias, ele pensava.
Ela chorou dois dias seguidos. Não falou com ninguém. No terceiro dia teve uma consulta de emergência com a terapeuta. Falou por 40 minutos sem ser interrompida. Sentia-se exausta. Não era só o fato de ser abandonada por um homem com quem dividiu a cama por quase dois anos, mas por se culpar por ser independente, ativa, bem-sucedida, enquanto a mãe e as tias tinham sido apenas sombras toscas dos maridos, mulheres frustradas, que talvez quisessem o mesmo para as filhas. Tinha medo de ser como elas. Sentia culpa por saber que o seu sucesso as decepcionaria. ‘Sabia que isso ia acontecer. Com barriga e sozinha.’, elas diriam.
- O que essa gravidez representa pra você? Está te gerando angústia poder criar essa criança sozinha?, perguntou a terapeuta.
Os olhos encheram de água. Nada falou.
Vomitou no banheiro da festa de casamento da irmã. Ninguém viu. Não bebeu naquele dia. Entrou no altar acompanhada de um dos primos. Tinham tido um casinho na adolescência que não foi adiante. Os pais nem podiam imaginar. Gostavam da sensação de perigo que aquilo gerava. Depois de um tempo aquela adrenalina perdeu a graça. Eram adultos, precisavam seguir. Ele estava divorciado. Casou cedo com uma amiga de faculdade, mas a ex-esposa um dia chegou até ele e disse que estava indo embora. Para ele, naquele instante, parecia ser sem motivos, mas ela já o traía há mais de um ano com um homem que conheceu na internet. Foi viver com ele.
Seria fácil em outras circunstâncias ficarem juntos naquela noite, no entanto, apenas conversaram. Amanheceram juntos na varanda da casa da família. Choraram, confessaram segredos, desabafaram como nunca tinham feito. Descobriram que não sabiam quem era o outro até ali. Ela voltou para São Paulo. Ele para o Rio de Janeiro.
Na segunda-feira acordou sentindo dores muito fortes na barriga. Não conseguia dirigir. Foi de táxi para o hospital. Não seria mãe daquela vez. A pior dor era a da perda. A família nunca saberia da gravidez. Ela carregaria a história para sempre.
O vazio que ficava aos poucos seria preenchido de amor-próprio, onde antes houve mágoa e rancor. Um morreu para que ela renascesse. Uma vida se deu para que ela entendesse o valor que a vida tem. 
O celular apitava com a mensagem:
"Estarei em SP na semana que vem. Te vejo? Ass. Primo."
Sorriu.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O SOL QUE NASCE EM CADA MANHÃ


Se você soubesse que hoje é o seu último dia na Terra, o que terias a dizer a seu respeito? Que considerações faria sobre o tempo passado? Estaria satisfeito com suas atitudes ou arrependido das ações?

Nada que eu possa concluir talvez seja relevante para os outros, somente a mim, eu creio. Através das palavras que vão se juntando em frases, orações, consigo retirar de dentro de mim estes pensamentos que rogam por liberdade. O que quero dizer na verdade é que pra cada palavra que eu proferisse em minha própria defesa ou condenação, não teria nelas qualquer tipo de rancor ou pena. Sou afeito a aceitar cada decisão tomada, pois daquilo que se faz, se extrai todo o conhecimento e evolução que temos. A junção das perdas e ganhos resulta neste complexo emaranhado de carne, vísceras, sangue, que são comandados por este cérebro confuso e belo. Nele guardamos nossos segredos, quem somos e o que sentimos. Dele somos reféns. Ali está guardada nossa alma. Ela, a mais simples das coisas, que é no fim, tudo o que temos e somos.

Ao deitar a cabeça na cama, rezo em uma língua própria, falando com meus deuses. Eles que coabitam este corpo. Entre pedidos e questionamentos relembro um pouco da trajetória que me levou ao ponto onde estou. Com pouco mais de um quarto de século e a pretensão de uma vida longa pela frente, mas já com certo tempo despendido. Recordo de algumas pessoas que me marcaram de formas diversas e de muitas delas sinto saudade. Algumas tão presentes mesmo com a distância, outras ausentes apesar da aproximação. Viajo no espaço/tempo, confundindo-os. Faço da prece meu agradecimento por cada sentimento gerado por estas pessoas, pois isso as transformou em uma parte de mim. Agora sou também a união de cada um que algo em mim gerou.

Ao acordar, o sol que vem pela parte da janela que deixo aberta vem me acompanhar. Ele que mesmo coberto por nuvens nunca me abandonou. O astro do leão que sou. Iluminando as ideias que parecem turvas. Os olhos que já foram embaçados, hoje enxergam melhor. Não pela operação que fiz, mas porque o aprendizado me fez ver o mundo com mais clareza e compreensão. Tento aceitá-lo sem julgamentos tolos.

Parei pra pensar que não experimentei coisas simples para a maioria das pessoas. Não tive a oportunidade de dizer tantas outras. Ainda me falta dar nomes aos sentimentos que tenho. Serão eles inomináveis?

E no discurso que eu faria no derradeiro eu diria:

“Eu fui, eu sou e eu serei. O que deixo de herança para o mundo são as histórias e o amor. Fui um amante da vida e nada mais”.

Mas ao contrário dos que possam pensar que estou louco ou depressivo, se enganam, pois nada mais estou fazendo do que celebrar diariamente a vida. Pratico o renascimento diário, sendo batizado pela luz do sol de cada manhã.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

FLUNÁTICO

Ser feliz ou buscar sê-lo. Uma tarefa das mais complicadas quando pensamos em tê-la de forma permanente. Talvez impossível.
Desespero. Ansiedade. Um frio na barriga, quem sabe. Tud faz parte deste liquidificador de emoções que se chama futebol.
Em muitos momentos penso porque não sou indiferente. Por que me importo tanto? Eu não poderia ser fã de outra coisa?
Não!!!
Sou tricolor, sou apaixonado, sou um louco(não corinthiano), sou parte de um organismo que pulsa.

Que o futebol prossiga encantando os corações brasileiros sem violência.

Graças a Deus sou tricolor!!!!!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

DICAS


Guarde consigo aquele cheiro. Ele é único. E onde sentir algo semelhante, ficarás louco à procura dela, mesmo sabendo que é impossível a sua presença.

Ela pode não ser a mulher mais bonita com quem você já esteve. Porém ao vê-la, você não consegue imaginar imagem mais bela.

Seu sorriso pode ser capaz de te convencer a pensar a vida de um modo diferente. Portanto, nunca a faça chorar.

Seus dias com certeza serão piores quando ela não estiver. Mas aprenda que a liberdade é a forma mais eficaz de tê-la por perto. Livre, se ela estiver ao seu lado, é porque ela estará por vontade própria.

Não queira pouco e não dê pouco. Dê tudo de si. Seja a melhor versão de você. Nem sempre temos uma segunda chance para mostrar aquilo de que somos capazes.

Seja simples. Não exagere. Ela não quer uma versão “melhorada” sua, ela só quer você.

Ame os defeitos dela, assim como as qualidades. Não tente mudá-la. Esse seria o seu maior erro. Também temos os nossos erros e o grande mérito é saber se adaptar, sem se acomodar.

Conheça seu próprio coração. Saiba até onde ele é capaz de perdoar, aceitar, conceder. Nunca ultrapasse seu limite. O amor foi feito para congregar e não o contrário.

Não tenha medo da dor. Ela pode ser a conseqüência de te amado loucamente. Porém é bem menor do que o vazio de nunca ter amado alguém.

Então segure a mão dela, não caminhe sozinho. Compartilhe cada momento com a companhia desejada como se outros não fossem existir. Pois pode ser que não existam mesmo...

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

VIRADA


Pode acontecer de várias formas. Talvez a voz não saia e eu apenas olhe para o céu e tenha no pensamento aquilo que espero de bom. Ou posso ser contagiado por uma energia inesperada e comece a gritar em êxtase. Quem sabe um abraço amigo venha me trazer ao mundo para sentir quão boa é a vida. Não tem como prever.

A virada do ano nada mais é do que a passagem de um dia para o outro. De um mês para o outro. De um ano para o outro. Algo muda? O céticos dizem que não.

Eu acredito que ao termos um número extraordinário de pessoas vibrando energias positivas ao mesmo tempo, geramos no universo uma revolução impossível em qualquer outra época do ano. Crer no bem deveria ser obrigação eterna, porém cansamos e desistimos de nossos próprios anseios, tornando a vida um arrastar do tempo.

O reveillon por alguma razão muda esse panorama. Com a aproximação do final do ano, rezamos para que chegue logo o dia 1 de janeiro, como se ele nos trouxesse um novo rumo.

Mudar requer tempo, coragem, disposição, força de vontade e antes de tudo, auto-análise. Por este motivo a grande maioria das promessas de ano novo não vingam.

Creio que ao reunir no coração pedidos sinceros de algo novo e bom, fazem o mundo conspirar. Aos incrédulos o meu pesar.

Penso no bem.

Faço o bem.

Vivo o bem.

Mesmo que a felicidade seja algo que vai e volta, meu estado de espírito tem saldo altamente positivo. Essa luz que emana de cada um, mas que poucos são capazes de perceber, é o que nos diferencia dos demais. Levando essa luz aonde for, o mundo a nossa volta, seja na virada ou em qualquer época, é capaz de mudar. Mudar o próximo e a nós mesmos.

Mude se achar necessário. Pense que sempre é possível melhorar. Mas não renegue as coisas boas que já conquistou até então, pois somos o resultado do bem e do mal de tudo que passamos. Somos uma grande experiência. Devemos nos orgulhar dos erros tão quanto dos acertos. Eles também fazem parte de nós.

Então já está decidido. No grande momento da virada de ano, quando estiver concentrado em meus pensamentos particulares, algo estará garantido:

“Que eu prossiga sendo o erro e o acerto. E que eu me mantenha alerta e busque dentro de mim o melhor a se mostrar ao mundo.”

domingo, 26 de dezembro de 2010

REGRAS


Descobri que as leis que regem a minha vida não são necessariamente as mesma aceitas e ditadas pela sociedade. Sou feito de uma ética torpe, porém saudável dentro deste meu mundinho particular. Um universo paralelo onde posso ditar regras, aceitar sugestões, intervenções...
O amor, a aventura, a busca desenfreada pela felicidade são os caminhos escolhidos para um destino onde tudo é mutável, menos a certeza do sucesso.
Nasci diferente, cresci eu, fui mostrando aos poucos essa cara cínica e sorridente como quem já conhecesse de tudo um pouco, pensando que os domínios das leis do mundo próprio já me fizessem um cidadão dentro do mundo real, aquele em que todos aceitam essas outras leis do qual eu renego. Mas não. Na "vida real" tenho que parecer ser o correto. Sou ator nessas horas. Assim vou levando. Às escondidas, vivendo com meu avatar, sou eu de verdade. Quase um mutante. Achando dessa forma, um caminho mais sincero para a felicidade.
Não vivo sozinho. A vida sem companhia não faz sentido. Outros me acompanham na jornada. Vivem das mesmas leis. Onde a lei é não ter regras. Onde a regra é ser feliz. Não chegamos à inconsequência. Temos nossas responsabilidades. Porém somos leves no pensar, no pisar, no aceitar, no viver. Sejamos leves e livres para que os bons ventos possam nos carregar pelo céu, sem destino, com surpresas.
Nas ruas é fácil nos identificar. Carregamos estampado no rosto um sorriso diferente. Um olhar profundo e sincero, um coração que bate forte, levantando a camisa. Somos alimentados de uma esperança que vem não sei de onde e que nos dá a energia necessária para voar.
É difícil ser "dois" ao mesmo tempo. Há inveja daqueles que não são como nós. Pois a felicidade é bem raro. Muitos acham que a possuem. Vivem em um mar de incertezas, sem saber quem são seus verdadeiros amigos, sem fazer o que gosta de verdade, sem dar uma gargalhada de verdade, sem viver de verdade. Vivem, se pudermos chamar isso de vida, aquilo que foram ensinados a viver e não o que desejam realmente. E sabem porque? A grande maioria não foi ensinada a desejar. O desejar é complexo. Requer auto confiança e força de ação. Poucos conseguem se soltar das amarras e correr atrás de algo desejado.
Assim se passam dias, meses, anos...tudo dentro das regras gerais. Sem coração. Sem sentimento. Sem nada.
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