sábado, 30 de janeiro de 2010

FLA X FLU


O Fla-Flu nunca morrerá. Está fadado à eternidade. Fará ainda seus torcedores mais fanáticos gritarem daqui há mil anos. Em um mundo cheio de tecnologias, a grama, a bola e o homem ainda serão os motivos de nosso pranto, a razão de nosso ardor. O Tricolor brilhará no infinito! As batalhas que estão por vir, vão traduzir a imensidão de um sonho terno, a mágica de um gol ao fim da partida. O que sentimos neste momento só pode ser relatado por aqueles que vivem o sonho, que amam as três cores da magia. Ernesto Xavier

"O Fla-Flu, já me dizia o meu irmão Mário Filho, o Fla-Flu é um jogo para sempre, não é um jogo para um século, um século é muito pouco para a sede e a fome do Fla-Flu... Começado o Fla-Flu, ele percorreria o tempo dos tempos. Foi uma criação do meu irmão Mário Filho, ele que era o gênio da crônica esportiva, ele era o autor de piadas fantásticas. Ele se lembrou de fazer Fla-Flu, tinha notado que Fla-Flu possuía uma flama, uma trepidação que nenhum outro jogo possuía. Até hoje em todo o mundo não há um jogo que chegue aos pés do Fla-Flu. Que é cada vez mais empolgante. E cada jogo entre o Fluminense e o Flamengo parece ser o maior do século e será assim eternamente." Nelson Rodrigues

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

FIO CONDUTOR


Sigo procurando o fio condutor que me trouxe até aqui. Pode ser que ele não exista e que eu tenha caído de pára-quedas nesta fase da vida. Uma fase de resgates, não de nostalgia. Precisava refazer caminhos, terminar estradas, repensar os limites do meu território, ou então me dar asas e aprender a viver sem limites. Descobri o motivo da busca: tinha voltado a estudar. Isso me trouxe sensações e lembranças tão fortes.

Quando me sinto ultrapassado, estagnado, sem conseguir dar o próximo passo sozinho, me vem a necessidade de estudar. Optei pelo francês. Gosto de línguas novas, pois parecem me levar à lugares que nunca estive e poder sonhar em conhecê-los um dia. E foi assim que voltei a ter frio na barriga antes de uma prova, a rezar pela hora do intervalo, conversar com amigos de classe, me sentir um ignorante vendo a luz no fim do túnel.

Hoje senti, mesmo que em pensamento, o cheiro do biscoito recheado de morango que eu levava para lanchar na infância. Nunca mais encontrei um com aquele cheiro, sabor. Rezávamos antes de comer, uma formalidade para aquelas crianças ávidas por comida e diversão.

Acordar cedo, lutar contra a cama e depois ser vencido por uma voz oculta que me dizia para ser responsável e estudar o máximo que pudesse. Por 4 semanas, 5 dias na semana, 3 horas por dia, foi assim. E como foi bom! Nada supera o descobrimento do novo. Um mundo que se abre em forma de palavras, letras, sons. Eu podia novamente me sentir um pensante, alguém que fazia parte desta dádiva que se chama conhecimento.

Busquei nas gavetas, fotos daquele passado. Fazíamos parte de um mundo particular. Tínhamos nossas regras, gírias, piadas, trejeitos próprios. Éramos não só uma turma, mas uma nação. Naqueles registros vi nossos sorrisos infantis, cheios de esperança. Tínhamos um futuro brilhante pela frente. Ainda com menos responsabilidades, podíamos jurar que nada destruiria aqueles laços. Mas o tempo foi mostrando que aos poucos e naturalmente, outros laços foram se formando e muito daqueles foram se perdendo. Coisa normal da vida. Vamos indo para direções diferentes. Alguns se reencontram pela estrada, retomam o mesmo curso, mas já não somos mais os mesmos. Somos diferentes, outros praticamente. Aquele passado deixado lá trás costuma ser lembrado com mais romantismo. Eliminamos os momentos ruins, fazemos do passado um lugar mais bonito para se viver. Prefiro o hoje, mas não tiro o mérito do que passou. O tempo é amigo daqueles que sabem olhar pra frente sem esquecer o caminho feito para chegar até ali. Por isso ainda procuro o fio que me trouxe até aqui. Quero ser ajudado e não tragado pelo tempo.

Je suis très content maintenant! J’aime ma vie! À demain.

Imagem: RENOIR, Pierre-Auguste

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

SOZINHO NO APARTAMENTO


Se estou sozinho em casa, então porque fechei a porta do banheiro? Precisava tomar banho, mas senti preguiça, resisti durante um tempo. Pareço sempre me portar como se mais uma pessoa estivesse em casa. Fui acostumado a viver em multidão, mas também aprendi a viver com menos pessoas ou sem alguém. Todas as situações tem suas vantagens. Fico bem com todas.

À tarde dormi, não pelo cansaço, mas para sonhar. Tenho a necessidade de sentir outra vida, que não a minha. Às vezes parece melhor. Acordado agora, posso pensar no mundo criado em meus sonhos e pensar que talvez ali possam residir respostas para a realidade vivida.

Recebi uma carta. Não lembrava há quanto tempo isso não acontecia. Escrita à mão. Um carinho vindo de longe, de alguém que nunca vi, mas que já tenho apreço. São de surpresas assim que reconstruímos a alma. Desses pequenos detalhes, quase imperceptíveis que é feito o muro de proteção do meu castelo. Esta firme construção não foi feita de pedras e sim de lembranças. Cada uma, a seu jeito, foi moldando o espaço. Para lembrar quem eu sou, basta olhar atentamente a casa. Ela ainda está em obra. Sou um ser em movimento constante, mas sigo em uma direção indecifrável, porém definida.

Assisto a um filme já começado. Dá para imaginar o que aconteceu nos minutos perdidos. Fui pego pela história, queria saber seu final. Desses românticos para distrair a noite, nada demais, interessante eu diria.

Sei que preciso dormir, mas não sinto sono. Os sonhos da tarde me fizeram descansar também. Agora os olhos não pregam. Sinto preguiça deitado no sofá. Mas lembrei que antes precisava tomar banho. Entrei no banheiro. Se estou sozinho em casa, então porque fechei a porta do banheiro?


Imagem: MUNCH, Edvard.(O Grito)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

LUA MINHA


Lua minha que habita as noites mal dormidas.

Vela meu sono

quando tudo o mais parece estar acabado,

sem sentido real.


A ti que ilumina os caminhos

de todos que te veneram e admiram.

Faz de mim um lobo uivante,

que suplica pela chance de alcançá-la.


Trocas o dia pela noite,

às vezes se esconde,

mas volta a tornar-se bela

e sorridente.


Lua que me faz vivo,

lua que materializa meus sonhos.

Traz consigo a noite às costas,

feridas cheias de lamentos.


Só a ti mostro meus

olhos em prantos,

a boca em silêncio,

segurando o grito de dor.


Mostre ao guerreiro

que seu escudo é a proteção

Sua luz, a mais bela das dádivas divinas

Suas curvas, o aconchego do lutador.


Dê direção a este

pobre andarilho.

Venha a mim como

uma deusa.


Não permita que

o passado vença o presente.

Traga-me a voz, o sorriso,

o beijo.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

BARACK SEBASTIÃO


Neste dia 20 de janeiro, que no Rio é feriado, comemoramos o dia do padroeiro da cidade: São Sebastião. Este que foi um soldado mártir, assim como o outro santo muito festejado na cidade: São Jorge. Diria então que o Rio é uma cidade de guerreiros. Soldados que morreram lutando pela fé cristã. Não vou entrar no mérito religioso, mesmo sendo extremamente simpático aos dois santos citados. Os dois, em diferentes regiões do país, são sincretizados na umbanda com Ogum e Oxossi. Orixás igualmente guerreiros e batalhadores, defensores do bem.

Com a energia deste dia tão importante, Barack Obama assumiu a presidência dos EUA no ano passado. Aquele que foi um dia mágico não só para os americanos, mas para cada negro no mundo. A maior potência mundial estava sendo liderada por um semelhante. Para um povo que sofreu com a escravidão durante mais de 300 anos, que teve um número de homicídios infinitamente maior do que o Holocausto, que sofre com a fome, analfabetismo, descaso, doenças, sem que alguém se mova para ajudar. Quando aquele homem dizia: “Yes, we can!” Ele falava por 2 bilhões de pessoas.

Um ano não é muita coisa e Obama ainda precisa de muito mais do que ser o primeiro presidente americano negro para entrar para a História de verdade. Mas no coração de cada ser que assistiu a posse ao vivo ou pela TV, ele já está marcado. Somente carregado pela energia dos guerreiros ele poderia chegar lá.

A política americana é complicada de entender se tentarmos fazer um paralelo com nossa realidade. Por incrível que pareça, aprovar alguma lei lá é muito mais difícil do que aqui. E diferente da nossa cultura, promover melhorias para os mais necessitados, dando-lhes “vantagens”, como assistência de saúde, não é visto com bons olhos por boa parte da população(republicanos). O nosso SUS é algo de primeiro mundo perto do sistema de saúde americano. Esqueçam seriados como E.R., House, Grey’s Anatomy...aquilo não existe.

Diferente de seu antecessor, Obama não parece tão afeito a guerras sem motivo. Porém se encontra em uma encruzilhada com as duas guerras inúteis que Bush lhe deixou. Acabar com tudo, reduzindo despesas e aceitando o erro americano ou permanecer e tentar consertar? O custo da manutenção das tropas no Afeganistão e no Iraque contrasta com um país com déficit de empregos após a crise financeira mundial.

Espero que Obama assuma o exemplo deixado por São Sebastião: só lutará em defesa de causas justas. A guerra pela guerra não é um ato nobre e sim vandalismo.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

MARIA, ESPERA!


O sertão de Boquira já não dava mais pra viver. Fazia um ano que Maria tinha perdido seu velho Sebastião. Já não tinha mais com quem dividir as tarefas, a angústia, a solidão. Os ossos fracos, a pele enrugada do tempo seco, tudo era árido, inclusive seu coração.
Há 25 anos não via nenhum dos 3 filhos: José, Jorge e Ubirajara. Tinham partido pra tentar a vida no Rio de Janeiro. As cartas de mês em mês e um telefonema nas datas especiais eram a única forma de comunicação dessa mulher de 70 anos. Quando sobrava, mandavam um dinheirinho pros pais.
Vivia porque a morte talvez tenha esquecido dela. Seu tempo já tinha passado, o sorriso já não lhe vinha à boca. A fome já não era mais de comida, mas de vida. Sentia saudade da casa cheia de homens. Seus meninos. Um de 45, um de 40 e outro de 35. Quando saíram de Boquira, no interior baiano, o menor tinha só 10 anos. Chorava por deixar os pais, mas a mãe sabia que ali não existia futuro para eles. Era como se o que restava dela estava sendo arrancado, sem perdão. Entrou em depressão. Só Tião para cuidar dela.
Foram vinte horas de viagem e o peso do mundo em seu corpo de tanta ansiedade. Cruzou o sertão baiano, Minas Gerais, até chegar ao Rio. Nunca tinha saído da Bahia, no máximo uma ida a Feira de Santana, Jequié, Bom Jesus da Lapa. Tinha medo da grandeza da Terra. Não queria se perder.
Estava maravilhada com o tamanho daquele Rio de Janeiro que ela só tinha visto na televisão. Era muito maior do que imaginava. Achou estranho aquele amontoado de casas uma em cima da outra. Como podiam viver assim?
Chegou à rodoviária. Não trazia mais do que uma mala de lona com as poucas roupas que possuia. Nunca tinha visto tanta gente junta. Procurou o rosto dos filhos no meio da multidão. Não achou. Será que tinham mudado tanto? Mas já tinha visto fotos novas deles.
Maria sentou em um banco e esperou. Será que tinham esquecido dela? Ou aconteceu alguma coisa no caminho? O Rio de Janeiro é tão perigoso. Já não dava importância para a fome que o estômago a todo momento avisava. Queria um sinal de rosto conhecido. Tinha vontade de chorar, porém não lembrava como era. Nunca a solidão tinha sido tão forte. Fechou os olhos e ouvia milhares de vozes falando ao mesmo tempo. Tentava lembrar de coisas boas. Quase duas horas já tinham se passado.
Até que Maria ouviu: "Maria, espera!" Abriu os olhos. Não viu ninguém conhecido. Seria ilusão? Girou no próprio eixo a procura daquela voz que a chamou e nada. Nenhum olhar cruzava com o seu. Como se ela fosse invisível aos olhos humanos. "Será que estou morta, meu Deus?"
Neste momento uma mão quente tocou seu ombro. "Vó?" Maria deixou uma lágrima cair e se virou. Madalena, sua neta. Tão parecida com o filho José. Só tinha visto mais nova nas fotos que o filho mandava. Um abraço amigo depois de tanto tempo.
-Desculpa, vó. Vim desesperada pra buscar a senhora.
-Não tem problema minha filha.
-Que bom conhecer a senhora.
-Eu que o diga!
-Peguei um engarrafamento monstruoso pra chegar aqui.
-O que é isso, menina?
-Nada vó, nada. Esperou muito tempo?
-Vinte cinco anos, minha neta. Vinte cinco anos.


Imagem: Matisse, Henri.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

HAITI


Um silêncio que deve ter durado menos de um segundo. Mas um silêncio assustador, daqueles que precedem grandes catástrofes. E então o primeiro estrondo. Debaixo dos pés vinha uma força nunca vista. O mundo estava virando ao contrário. Não tinha como ter noção do que estava acontecendo. Os corpos se debatiam sem que qualquer pessoa pudesse fazer alguma coisa para evitar. Ao redor, pedaços de parede, laje, tudo caía. O que na verdade eram apenas 30 segundos, pareciam horas. O caos fez com que o tempo mudasse seu curso e passasse lentamente, como que no intuito de nos fazer registrar cada instante da tragédia. O famoso “filme” da vida passava diante dos olhos. Será que a hora derradeira já tinha chegado? Lutar pela vida era mais importante.

E então um novo silêncio. Este parece ter durado mais tempo. Mas os gritos e pedidos de socorro ecoaram por todo espaço. Ainda havia vida. Havia também desespero, dor, sofrimento.

Talvez tenha sido assim naquela trágica terça-feira em Porto Príncipe. A única certeza que tenho é da tristeza de um povo que já sofre com tantas outras adversidades, fazendo de seu país o mais pobre do continente americano. Sofrer parece ser o único modo de vida desta população tão miserável.

Há seis anos atrás a seleção brasileira de futebol esteve lá para promover um jogo de paz. Até hoje me emocionam as imagens dos jogadores andando em tanques de guerra e sendo adorados por aquelas pessoas como se fossem deuses. Mas dentro de um lugar que às vezes parece esquecido por Deus, aqueles homens, que se lembraram deles, que se importaram com eles, eram sim deuses. Traziam um pouco de alegria a rostos acostumados apenas com lágrimas.

Vendo as imagens pela televisão é tão difícil entender como mesmo em meio ao caos total, tanta gente ainda lute pela vida. Por que viver em um mundo de fome, dor e descaso? Aí entendemos que a vida é muito maior que tudo isso.

Podemos dizer que em todo o Brasil também iremos encontrar miséria, sofrimento e dor, mas nada pode se comparar a tantos corpos jogados pelas ruas, a total falta de recursos e mantimentos. A importância de uma vida é igual em qualquer parte do mundo. E por isso também devemos pensar e rezar pelo Haiti, parafraseando Caetano. E também pelo desabrigados de Angra, Santa Catarina, Índia, Afeganistão, Iraque, não importa quão distante. Peçamos pela vida, pela paz, pelo amor. E só assim conseguiremos superar tantas catástrofes.

Apesar de tudo, ainda é bom viver nesse mundo.

Postagens mais recentes Postagens mais antigas Página inicial

Copyright © Boletim Afrocarioca | Design: Agência Mocho